Porque não começar a nova década tendo um olhar mais crítico em um filme - ou seria melhor dizer uma obra prima - realizada pelo gênio Charles Chaplin no distante ano de 1936. O filme em questão é Tempos Modernos (Modern Times, EUA 1936). Um clássico do cinema que aos nossos olhos hoje em plena segunda década do século XXI ainda nos faz parar para pensar.
Na trama Chaplin - que além de atuar, dirigir e compor a trilha sonora - vive um operário que trabalha em uma fábrica de aparelhos elétricos e a sua função nada mais é do que apertar roscas, ou seja, um trabalho extremamente mecânico e repetitivo. Logo na primeira cena fica claro para os espectadores que os trabalhadores não passam de "animais" para os donos da fábrica, e Chaplin satiriza isso de forma sutil e inteligente, coisa que somente um mestre como ele poderia criar.
Lógico que não demora muito para o operário vivido por Chaplin ter um colapso nervoso e pirar devido ao seu trabalho repetitivo. A cena em que ele entra na máquina é antológica e o que se segue é literalmente uma das cenas mais bem elaboradas do cinema.
Na sequência Chaplin coloca toda a sua criatividade para criticar o sistema Capitalista. A cena em que seu personagem é confundido como um agitador e é preso é muito bem dirigida, assim como a sua interpretação ao ser comunicado pelo delegado da cadeia que ele está livre e pode sair para o mundo exterior, ao que ele indaga ao delegado se não pode ficar mais um pouco, pois ali estava tão bom para ele, e mais uma vez uma crítica criativa onde a verdadeira prisão é o mundo exterior.
Outro acerto de Chaplin é unir a partir de um determinado ponto do filme a história do seu personagem, com a de uma mulher orfã, pela qual ele se apaixona. Os dois então vão tentar viver o sonho americano tentando de todas as formas se inserirem em uma sociedade cada vez mais egoísta e fechada - e detalhe que o filme foi produzido em 1936. A cena em que os dois se imaginam em uma casa perfeita é puro lirísmo e passa bem a idéia do american way of life e novamente Chaplin demonstra com muita sutileza a sua visão crítica ao sistema.
No final é um filme que continua atual e que deve ser visto com os olhos mais críticos por ter muitas sutilezas ao logo dos seus 84 minutos de duração, coisas que só um gênio da magnitude de Charles Chaplin poderiam colocar de forma sutil e fazer uma das obras primas do cinema que sempre irá ser atual.
Por isso resolvi inaugurar os post de 2010 com os meus comentários sobre esse filme e quem sabe já começar inspirado a nova década para que bons filmes como este venham a brilhar na tela, pois se Chaplin com poucos recursos conseguia um resultado excepcional imagine o que não faria hoje com toda a sua genealidade e os recursos que temos, com certeza muitas outras obras primas. Que 2010 e os anos que virão em seguida sejam melhores ainda para o cinema.


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